Saiu na
Folha (*) artigo de Vladimir Safatle:
O inimigo da moral
O maior inimigo da moralidade não é a imoralidade, mas a parcialidade.
O primeiro atributo dos
julgamentos morais é a universalidade. Pois espera-se de tais
julgamentos que sejam simétricos, que tratem casos semelhantes de forma
equivalente. Quando tal simetria se quebra, então os gritos
moralizadores começam a soar como astúcia estratégica submetida à lógica
do “para os amigos, tudo, para os inimigos, a lei”.
Devemos ter isso em mente
quando a questão é pensar as relações entre moral e política no Brasil.
Muitas vezes, a imprensa desempenhou um papel importante na revelação de
práticas de corrupção arraigadas em vários estratos dos governos. No
entanto houve momentos em que seu silêncio foi inaceitável.
Por exemplo, no auge do dito
caso do mensalão, descobriu-se que o esquema de corrupção que gerou o
escândalo fora montado pelo presidente do maior partido de oposição.
Esquema criado não só para financiar sua campanha como senador mas (como
o próprio afirmou em entrevista à Folha) também para arrecadar fundos
para a campanha presidencial de seu candidato.
Em qualquer lugar do mundo, uma
informação dessa natureza seria uma notícia espetacular. No Brasil,
alguns importantes veículos da imprensa simplesmente omitiram essa
informação a seus leitores durante meses.
Outro exemplo ilustrativo
acontece com o metrô de São Paulo. Não bastasse ser uma obra construída a
passos inacreditavelmente lentos, marcada por adiamentos reiterados,
com direito a acidentes mortais resultantes de parcerias
público-privadas lesivas aos interesses públicos, temos um histórico de
denúncias de corrupção (caso Alstom), licitações forjadas e afastamento
de seu presidente pela Justiça, que justificariam que nossos melhores
jornalistas investigativos se voltassem ao subsolo de São Paulo.
Agora volta a discussão sobre o
processo de privatização do governo FHC. Na época, as denúncias de
malversações se avolumaram, algumas apresentadas por esta Folha. Mas
vimos um festival de “engavetamento” de pedidos de investigação pela
Procuradoria-Geral da União, assim como CPIs abortadas por manobras
regimentais ou sufocadas em seu nascedouro. Ou seja, nada foi, de fato,
investigado.
O povo brasileiro tem o direito
de saber o que realmente aconteceu na venda de algumas de suas empresas
mais importantes. Não é mais possível vermos essa situação na qual uma
exigência de investigação concreta de corrupção é imediatamente vista
por alguns como expressão de interesses partidários. O Brasil será
melhor quando o ímpeto investigativo atingir a todos de maneira
simétrica.
Sintonia Fina - Conversa Afiada
"O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter"
(Cláudio Abramo)
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