17 de fev de 2013

O lado bem menos admirável do Google


Vários governos estão incomodados com as manobras da corporação para pagar taxas mínimas de impostos.
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PAULO NOGUEIRA
O Google é bipolar.
Tem um lado inovador, moderno, admirável. Seus funcionários, por exemplo, podem dedicar 20% do tempo na empresa a projetos pessoas. O Orkut nasceu disso.
Viúvo ou viúva de empregado morto recebe metade do salário durante dez anos, revelou há pouco a revista americana Forbes.
Clap, clap, clap. De pé.
O Google tem coisas extraordinárias também como os ‘Doodles’, as ilustrações (ou animações, eventualmente) de sua página de entrada. Os ‘Doodles’ já entraram na cultura pop contemporânea. Durante as Olimpíadas, principalmente, ele foram uma sensação.
Mas o Google, por ser bipolar, tem um outro lado que é abjeto e desinspirador. Comentei recentemente a malandragem – legal – empregada pela corporação para pagar impostos irrisórios, nada condizentes com seu faturamento bilionário.
Nesta semana, o governo inglês esperneou. O Google fatura 4 bilhões de dólares no Reino Unido É seu segundo maior mercado, depois do americano. Mas a companhia declarou apenas 395 milhões de faturamento, pelos quais pagou 6 millhões de impostos.
“Até quando o Google conseguirá escapar das taxas britânicas?” – é o título de um artigo  de hoje de um site de tecnologia. O Google usa subsidiárias na Irlanda e na Holanda – em que os impostos são bem menores – para declarar a maior parte do dinheiro ganho no Reino Unido. É uma estratégia conhecida pelo mcdonaldiano nome de “Double Irish with a Dutch Sandwich”.
Outros governos estão querendo acabar com a farra. Há poucas semanas, também a Austrália anunciou seu inconformismo: o Google local fatura 1 bilhão de dólares e, em 2011, pagou 75 000 dólares.
Já disse uma vez e repito: algum repórter brasileiro deveria bater na porta da Receita Federal e apurar quanto o Google fatura e paga de impostos no Brasil.
A bipolaridade se manifesta também em outra área: na da privacidade. A justiça americana acaba de multar o Google em 22,5 milhões de dólares por infringir a legislação de privacidade.
É uma multa grande, mas, como notou o Wall Street Journal, em três horas o Google ganha isso. De toda forma, é um marco. A legislação europeia de privacidade na internet é bem mais rígida que a americana, e provavelmente o Google terá problemas legais e econômicos naquele fronte.
O Google foi, basicamente, acusado de trapacear nos chamados cookies, biscoitos, em português. Os cookies permitem que informações do usuário fiquem armazenadas e possam depois ter uso comercial. Quem levou os cookies ao estado da arte foi a Amazon. Quando você passa pela Amazon e faz compras, sua atividade é registrada. Quando você retorna, há ofertas de produtos com base naquilo que você comprou antes.
A questão, aí, é de transparência. O internauta tem que saber dos cookies e aquiescer. O Google pagou a multa milionária por não ser suficiente claro perante os usuários na questão dos cookies.
Vaias, vaias estrepitosas para o Google.
Uma coisa é certa: o Google, como corporação, está longe de ser o modelo que muitos julgam ser. Em sua bipolaridade patológica, é, ao mesmo tempo, admirável e abominável.

Sintonia Fina

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