30 de nov de 2011

Quem está vencendo a disputa político-ideológica no Brasil?

O Sintonia Fina reproduz artigo do Blog da Cidadania.



Todos os dias, grandes jornais, televisões, rádios e portais de internet travam uma disputa surda com blogueiros, tuiteiros e facebookers pelos corações e mentes dos formadores de opinião, aquelas pessoas de diversos estratos sociais, faixas etárias e regiões do país que têm interesse em política e que, ao lado da percepção da sociedade sobre a própria vida, influem na formação das duas grandes correntes político-ideológicas do país, uma contra o governo e outra a favor, ou uma conservadora e a outra progressista.
Antes de prosseguir, porém, qualifiquemos essas correntes quanto às ideias-força que as mobilizam.

Uma corrente político-ideológica acredita em nova forma de governar em que sejam privilegiadas medidas do Estado socialmente inclusivas e as relações sul-sul em detrimento das relações sul-norte. A outra corrente privilegia a teoria de fazer o bolo crescer para só depois dividi-lo e acredita em impor sacrifícios sociais até que o bolo tenha crescido suficientemente – o que nunca se viu ocorrer, diga-se.

As duas grandes correntes políticas que dividem o país, portanto, sempre foram a dos conservadores e a dos progressistas, sendo que tanto de um lado quanto do outro cabem subgrupos com diferentes intensidades de convicções naquelas macro premissas ou visões sobre o papel do Estado e sobre quem, ao fim e ao cabo, irá ganhar ou perder na divisão de riquezas e sacrifícios.

Essas correntes, hoje, digladiam-se diariamente, ainda que de forma desigual.
De um lado, grandes impérios de comunicação dotados de recursos bilionários e que, através deles, conseguem eleger políticos que lhes conferem um braço institucional votando ou administrando como esses grupos empresariais querem. E esses grupos, valendo-se de ameaças de ataques ou de promessas de afagos em seus veículos conseguiram instalar seus representantes também no Poder Judiciário.

Do outro lado, um grande movimento na internet composto por militantes de partidos, por cidadãos apartidários e por jornalistas sem cobertura de empresas jornalísticas, todos decididos a combater os conservadores apoiando políticos alinhados à sua visão, que, no caso, no fim das contas são os políticos do PT, ainda que estes mantenham uma relação muito mais distante com as novas mídias que os apoiam em maior ou menor intensidade.
O que caracteriza esse lado progressista na internet é o trabalho voluntário e isolado, caótico, sem um comando central como o dos grupos de mídia conservadores, grupos que, por sua vez, obedecem a interesses empresariais, de classe social e regionais que se comunicam entre si em associações formais e informais, e que, junto aos políticos que elegem com seus meios de comunicação, dão combate ao governo progressista.
Na verdade, essa é uma situação nova. 

Até 2002, quando finalmente o poder mudou de mãos no Brasil e a internet ainda era uma infante – enquanto que hoje é uma adolescente –, não havia guerra de comunicação alguma simplesmente porque a comunicação estava toda nas mãos de um dos lados da eterna disputa entre conservadores e progressistas, uma disputa que, ao longo do século passado, foi opondo grupos com divergências cada vez menores, sendo que o lado progressista foi o que mais cedeu, ainda que o lado conservador tenha passado a admitir certas e restritas demandas sociais.

O surgimento da internet, portanto, permitiu que as eleições deixassem de depender exclusivamente da percepção da sociedade sobre seu bem-estar e do que a grande mídia dizia sobre os políticos, fórmula que manteve certa corrente político-ideológica – mas não necessariamente partidária – no poder pelo maior período do século XX, excluídos os períodos de governos menos alinhados ao conservadorismo que acabaram sendo derrubados à força, sem concurso das urnas.

Neste ponto entra a primeira eleição do pós regime militar em que o poder mudou de mãos no Brasil. Parece pouco polêmico afirmar que Lula se elegeu em 2002 por acidente, digamos assim. Se o país, à época, não tivesse caído em um imenso buraco, o político trabalhista jamais teria se convertido na única opção que faltava o eleitorado experimentar na tentativa de sair de uma crise que parecia não ter saída.

Se a situação não tivesse piorado tanto, se tivesse melhorado um pouco que fosse de forma a dar esperança à sociedade, com a mídia demonizando a então oposição petista, dizendo-a adepta do “quanto pior, melhor”, pintando-a como grupo “radical” que transformaria o Brasil em uma “Cuba” o poder jamais teria mudado de mãos, pois governos conservadores, dos quais o governo Fernando Henrique Cardoso foi o último representante no poder, eram protegidos por aquela mídia de qualquer ataque que lhes fizesse a oposição progressista, então comandada por Lula e pelo PT.
Ao fim desse quilométrico preâmbulo, pois, surge a questão de fundo que o post propõe:  quem está vencendo a guerra da comunicação, neste momento?

A resposta é menos simples do que parece. Apesar de os progressistas terem chegado ao poder em 2002 e não saído mais, com três eleições presidenciais que foram vencendo de forma cada vez mais contundente, ampliando a base de apoio do governo a cada eleição, não se pode desprezar o fato de que a máquina conservadora – composta pela mídia, por partidos políticos e por amigos de ambos no Judiciário – tem conseguido fazer quase um governo paralelo, vetando muita coisa que os três últimos governos petistas (eleitos em 2002, 2006 e 2010) tentaram fazer e não conseguiram exatamente porque os adversários não deixaram.

Os dois governos Lula e o governo Dilma, respectivamente, tiveram e tem menos poder do que os dois governos Fernando Henrique Cardoso porque o PT, enquanto na oposição, não tinha tamanho, mídia ou grandes amigos no Judiciário como tem hoje e, assim, jamais conseguiu influir nos governos do PSDB como este tem conseguido influir nos do PT a mando daqueles setores empresariais, sociais e regionais que controlam a mídia e os políticos que ela ainda elege com seu noticiário partidarizado, ideologizado e editorializado.

A pergunta sobre quem está vencendo a disputa político-ideológica lembra a metáfora sobre o copo meio cheio ou meio vazio, pois, apesar de hoje os progressistas estarem em situação muito melhor do que jamais estiveram, há que lembrar o preço que pagaram para chegar aonde chegaram, porque não se pode negar quanto tiveram que abrir mão de ideais e valores, fenômeno que os tornou mais parecidos com os oponentes, ainda que não sejam iguais.

Para não deixar o leitor sem saber se comemora ou se desanima, vale lembrar que é melhor que nenhuma corrente tenha poder esmagador sobre a outra e que não exista um abismo intransponível entre as correntes político-ideológicas, pois posições inconciliáveis costumam gerar impasses e dos impasses podem surgir conflitos bem piores do que esses que os conservadores e progressistas travam hoje na internet de forma intensa, muitas vezes exagerada, quase sempre pouco educada, mas, sem sombra de dúvida, pacífica e civilizada.


Sintonia Fina

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