16 de nov de 2011

Tijolaço mostra como PiG jogou jogo da Chevron




O Sintonia Fina reproduz texto do Conversa Afiada via do Tijolaço:

Prêmio Chevron de “jornalismo copiativo”

Sai o Prêmio Esso de Jornalismo, entra o “Prêmio Chevron-Texaco” de copiação de press-releases.

Foi preciso que a agência Reuters furasse toda a imprensa nacional e publicasse a declaração do diretor da ANP Florival Carvalho de que a Chevron é a responsável pelo vazamento de petróleo no Campo de Frade e que o derrame é consequência direta de um poço que estava sendo perfurado pela Chevron-Texaco e que ele deverá ser cimentado e vedado.

Muito bem, já é alguma coisa.

Mas falta muito ainda para saber.

A começar por  sabermos qual deles será lacrado, pois são três poços  que  sendo simultaneamente perfurados pela mesma plataforma Sedco 706 – aquela que o Wall Street Journal chamou de obsoleta e “motel marítimo” em 2008.

Como assim, três poços simultâneos?

É que a Chevron-Texaco, para fazer economia, está fazendo perfurações “de batelada”. Isto é, cava uma seção de um poço, tampa, cava a seção inicial de outro, faz o mesmo e vai para um terceiro, para voltar, na mesma sequência, para cada fase posterior de perfuração.

Não tenho condições técnicas de afirmar se isso agrega risco, posque o equipamento de perfuração é retirado e movido. Mas que, nos mapas da ANP não encontramos nenhuma outra petroleira que use este método é algo que você pode conferir aqui. E, da mesma forma, como no destaque que a gente reproduz, pode-se ver que são atribuídas quatro perfurações à Sedco 706, uma concluída e três em andamento simultâneo, segundo dados do dia 3 de novembro passado.

Continuamos não sabendo qual foi o poço, a que profundidade estava, se tinha tido contato com petróleo antes e, sobretudo, se foi a injeção de fluidos pressurizados que provocou a fissura no solo e se o simples tamponamento do solo irá fazer com que pare de vazer óleo pela rachadura.

Então a rachadura se deu a partir da parede do poço? Neste caso, não tem nada a ver com falha geológica. E como, se o povo deveria estar revestido e cimentado entre a rocha e o tubo de aço, conforme está previsto no plano de exploração da Chevron Texaco?

Aliás, além da assessora  Heloisa Marcondes  que disse na quinta-feira que o vazamento era “um fenômeno natural”, a imprensa ouviu algum diretor da Chevron?

A falta de empenho da empresa brasileira na apuração do acidente é um acinte ao jornalismo e ao interesse público.

Há cinco dias, só se publicam press-releases.

Antes, o Conversa Afiada tinha extraido este post do Tijolaço:

Obrigado pelo vazamento, Chevron




 

O título é apenas uma versão mais radical do comportamento da imprensa brasileira, até agora, em relação ao vazamento de petróleo junto à plataforma de perfuração da Chevron-Texaco no Campo de frade, ao largo de campos, no Rio de Janeiro. Mesmo com a determinação da presidenta Dilma Rousseff para que fosse investigado, na sexta-feira, o assunto, quando não é ignorado pela mídia, é abordado em matérias que se parecem press-releases de um empresa que, além de demorar mais de 24 horas para tornar público o problema, chegou a dizer que o fenômeno era “natural” e que, até agora, não deu infomações básicas sobre as circunstâncias do acidente.

Não deu, reconheça-se, porque aparentemente nenhum jornal o pediu.

Ao contrário, reproduzem assim os releases da companhia:

“Chevron mobiliza equipe global para conter vazamento”.Este é o título da matéria do Estadão, reproduzida pela Exame (Abril), enquanto o G1, do grupo Globo, destaca: Frota de 17 navios tenta controlar mancha após vazamento no RJ.

Para colaborar, este Tijolaço ajuda com uma lista de perguntas à empresa, que não foram feitas desde quarta feira passada.

1- A que profundidade (na lâmina d´água e no solo marinho)estava sendo feita a perfuração próxima ao vazamento?

2-Esta perfuração já tinha registrado depósitos  de óleo? A que profundidade?Em caso positivo, houve injeção de fluidos pressurizados para testes de vazão?

3- Até que profundidade o poço seria perfurado?

4- A perfuração era revestida e cimentada, como prevê o estudo de impacto ambiental apresentado pela companhia em seu plano de exploração?

5- O mesmo estudo, elaborado pela consultoria Ecologus, refere-se à presença de muitas falhas geológicas no campo de Frade, inclusive ao fato de três poços perfurados pela Chevron-Texaco terem sofrido desvios por conta de existência de fraturas no subsolo. Havia falhas geológicas detectadas junto a este poço nos estudos sísmicos efetuados?

4- Considerando que a empresa prevê a a perfuração em “batelada”,  onde os poços são perfurados até um determinado ponto, tampados e abandonados para perfuração de outro, próximo, para que todos estejam em etapas semelhantes e os custos sejam reduzidos, havia outras perfurações próxima, revestidas e tampadas, como prevê o estudo apresentado pela empresa ao Ibama?

5- Em que condições a plataforma Sedco 706, construída em 1976 e que já foi chamada pelo Wall Street Journal de obsoleta e aproveitável apenas como “motel marinho” foi reaproveitada no campo de Frade? Qual a razão de seu aluguel ser de US$ 315 mil dólares dia, cerca de 50% menor que o cobrado pelo aluguel de sondas ultraprofundas no mercado internacional? 

Porque a contratação de uma sonda capaz de perfurar até 7.600 metros, quando as ocorrências de óleo no Campo estão todas à metade desta profundidade?

6- Porque a empresa, que afirma ter detectado no fundo oceânico a “exsudação” de petróleo não libera as imagens do vazamento ou da mancha por ele provocada? Como foi estimada a quantidade de petróleo vazada?

7- A frota alegadamente enviada para deter o vazamento é composta de que embarcações? Qual a sua finalidade, apenas espalhar bóias de retenção? Aspergir diluidores sobre a mancha? Alguma delas tem equipamento para selar a fenda de onde brotaria o óleo? Em caso negativo, como a empresa espera que o vazamento cesse? Se ele pode parar naturalmente, isso tem relação com a paralisação dos trabalhos de perfuração?

Certamente estas e outras perguntas não foram feitas à Chevron por incompetência dos jornalistas, que as teriam feito – e muitas outras – se o poço fosse da Petrobras.

Mas, como é da Chevron, só falta nossos jornais, além de louvarem o esforço da empresa em parar um “desastre natural”. como chegou a dizer a empresa, agradecerem pelo acidente que mostra como a petroleira americana ainda nos faz o favor de tampar, embora não possamos apressá-la, não é?



Sintonia Fina

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