17 de fev de 2013

A rede dos descolados




Sou do tempo em que os partidos políticos eram formados para chegar ao poder.
Política não é uma brincadeira, tampouco pode ser vista como uma atividade em si, sem consequências. Qualquer atitude política implica uma ação que visa delimitar claramente um território ideológico: sou contra isso, sou a favor daquilo.


Quem faz política não pode marcar a coluna do meio, ficar no muro, fazer de conta que centenas de anos de história não valem nada, que todas as lutas em prol da civilização foram movimento perdidos no tempo e no espaço.


Sou do tempo em que as pessoas interessadas em política diziam claramente de que lado estavam: ou na esquerda, ou na direita.


Quem dizia que estava no meio era visto como um trapaceiro, um arrivista, um mero aproveitador.


Claro que esquerda e direita sempre tiveram nuances.
Nem por isso deixavam de ser visões opostas de mundo.
Capital versus trabalho.
Opressor versus oprimido.
Sou do tempo em que essas coisas eram simples.
Hoje, parece que tudo mudou.


Leio, com certo espanto, que um grupo de ricos empresários, com a ajuda de ex-parlamentares, tenta formar um novo partido, que incorpora todos os chavões existentes sobre ecologia, ambiente e "sustentabilidade", essa palavra mágica que diz tudo e não diz nada.
O mais impressionante não é o fato de que o tal partido não pretende ser nem oposição nem situação, nem que desdenha as doações de empresas "sujas", mas aceita de bom grado o dinheiro das empreiteiras, esses exemplos de ética nos negócios.


O que realmente chamou a minha atenção foi a atitude "blasé" da liderança máxima desse grupo de sustentáveis, a ex-senadora, ex-ministra e ex-candidata à presidência da República Marina Silva, sobre as eleições de 2014 e todas as outras: segundo ela, o seu partido é tão diferente dos outros que não está preocupado com a possibilidade de chegar ao poder.


"O que está acontecendo aqui é um partido para questionar a si próprio, e tem que ser assim. Não pode ser partido para eleição. Não é o principal. Estamos em uma nova visão de mundo, de sujeito político que não é mais espectador da política, esse sujeito é protagonista", disse Marina no lançamento da sua Rede - o nome da agremiação.


Sinceramente, parece coisa dos anos 60/70, do flower power, daquela turma que acreditava na Era de Aquário.


É um dèjá vu absoluto.


Marina e sua rede apenas trocaram o "paz e amor" dos coloridos hippies pela "sustentabilidade" desses verdes e espertos empresários.


Sou do tempo em que esse pessoal, com esse papinho descolado e vazio, iria levar uma sonora vaia numa assembleia partidária.
Saudade...




Sintonia Fina
via Crôrnicas do Motta

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