23 de jan de 2013

Ajude a tirar o debate político do rés do chão



Por Eduardo Guimarães -- 
Quebrar a rotina ajuda a reflexão. Eis que, ao abstrair do cotidiano em viagem de trabalho fora de São Paulo, atolado em reuniões chatas, em cifras, estratégias comerciais ou em almoços pantagruélicos que, indigestamente, terminam em mais reuniões, refleti sobre como estou de saco cheio do nível do debate político que se faz hoje no Brasil.
Começo a escrever pouco depois das onze da noite. Volto de jantar com um industrial e seus clientes estrangeiros. Falou-se de trabalho o tempo todo – quando a boca estava vazia. E quem não falava, escutava. Pedidos, faturas, remessas, protocolos, cobranças, concorrência, equipamentos, mão-de-obra… Ufa!
É chato? Muito. Mas confesso que, diante da interminável guerra verbal ou escrita que se trava em ambientes, vá lá, mais intelectualizados como aqueles nos quais se discute política, aquelas reuniões pareceram até amenas
No debate político que se trava no Brasil não se discutem estratégias, mas o quanto o país já está maravilhoso, próximo ao Éden, ou, então, como está falido, ao nível do inferno. Conforme o lado, estamos no inferno ou no paraíso. Não há meio termo. É o pensamento binário em estado sólido, e recendendo ao que é: uma merda.
Porque a vida não é feita de branco ou preto, quente ou frio, baixo ou alto, tênue ou esmagador. A vida é feita, justamente, de nuanças, de meios-tons, de ambiguidades. A vida é uma falta de certezas, mas o debate que se trava hoje é o da certeza absoluta até nas questões que mais desafiam a humanidade há milênios.
Claro que temos que denunciar a corrupção, combatê-la, fiscalizar o poder público, mas não desse jeito em que um lado vira bandido e o outro vira idiota, pois o que se tem hoje é isso: os escândalos em um lado decorrem de ingênua idiotia enquanto que os que acontecem do outro são sempre “os mais graves da história”, mesmo quando iguais aos que pesam contra o lado A.
E escolha você quem é lado A ou B. No fim, não fará diferença. Não mudará o nível do debate e o seu principal preço, que é atrasar a agenda do país por falta de foco no que deveria estar mobilizando as atenções.
Nos próximos três anos, o Brasil sediará os dois eventos esportivos mais importantes da atualidade. Está sentado em uma reserva de petróleo de proporções épicas, que será explorada por uma empresa genuinamente nacional. A população vai se tornando mais escolarizada e tem expectativa de futuro em alta.
Mas temos, também, uma pobreza que certamente não irá sumir quando o governo diz que irá, uma infra-estrutura para lá de atrasada, um nível de escolaridade médio baixíssimo e, inclusive, superestimado, pois um jovem brasileiro com onze anos de estudo não sabe tanto quanto equivalentes de países de qualidade de vida média como o nosso.
Nossas cidades são hostis, com raríssimas exceções. Nosso sistema de saúde ainda tortura os enfermos. Nossas escolas públicas e até as privadas não preparam nossa futura força de trabalho de forma minimamente análoga à que preparam as escolas de países muitas vezes até mais pobres e com muito menos recursos.
Esperaríamos que esses fossem os assuntos mais importantes, entre tantos outros, mas, enquanto temos tudo isso a resolver, em vez pôr mãos à obra ficamos nos masturbando com um julgamento cheio de nuanças políticas e em torno do qual parecemos ter apostado o futuro dos nossos netos e bisnetos, como se realmente alguém acreditasse que da degola de meia dúzia de políticos decorreria alguma diminuição da impunidade.
Ficamos discutindo um racionamento de energia cujas probabilidades de ocorrer sempre foram mínimas em vez de nos debruçarmos sobre como aproveitar a janela de oportunidades que está aberta para o Brasil em tantas áreas. Inclusive, negamo-nos a enxergar a própria janela, que dirá aquilo que ela mostra.
E ainda se discutíssemos essa inutilidade com modos, não seria nada. Mas é à base do nós contra eles, do tudo ou nada, da desqualificação completa de um lado pelo outro, não restando nada a quem estiver de fora que não seja entrar na pancadaria ou esquecer que política existe, com todas as consequências trágicas que a segunda opção encerra.
Tirei dois dias para refletir. Agora ponho a reflexão em texto. Nem sei o que está se passando na política. E, hoje, nem quero saber. Estou cheio dessa disputa pelo nada. A reflexão, portanto, é a de que temos que achar um jeito de elevar o debate ao rés do chão que se trava hoje no país. Você, por exemplo, leitor, não teria alguma idéia para doar?

Sintonia Fina

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