29 de jan de 2013

A Morte Como Espetáculo

Deixem os Mortos Morrer em Paz

René Amaral

Nem sei por onde começar! É um misto de emoções contraditórias e impulsos confusos. Tanta tristeza e dor, misturadas com o nojo de ver canalhice e ambição desmesuradas por audiência e lucros; que o lógico deveria ser começar com uma golfada de vômito, uma enxurrada de lágrimas e uma fieira de xingamentos do mais baixo calão possível, algo de deixar o Costinha com vergonha.

Desde a manhã de domingo presenciamos mais um show de mídia irresponsável, incompetente e sanguinária. A começar pela cobertura em si, um festival de como não se faz jornalismo. Até o meio da manhã, várias horas depois do fato consumado, as imagens que apareciam, como que editadas para um streaming em looping (quando o filme acaba começa de novo automaticamente), ainda eram as da madrugada. Isso é o resultado de empresas que valorizam mais a cobertura 'ampla', estadual, nacional, em detrimento  da regionalizada, mais próxima de cada realidade e mais capaz de prestar o serviço público de informar o que está acontecendo, ao  invés do que já aconteceu, e todos já estão cansados de saber. Então as imagens se repetiam, como se uma fita de VT (isso é do meu tempo) emendada, ficasse rodando constantemente a mesma coisa, as mesmas imagens obsessiva e doentiamente repetidas. Informação que é bom, só através de  depoimentos confusos de quem não tinha nem condições de se manter em pé.

Então chegam as equipes de reporcagem e começa o festival de suposições. Eu não estou aí pra saber o que pensam os editores, em sua maioria CANALHAS insensíveis, dispostos a tudo pra capitalizar em cima da dor alheia. Quero fatos, e fatos, num caso como esse, são a ultima coisa a aparecer. Mas os editores nem querem saber disso, querem explorar o sentimento, meio confuso, de todo ser humano, que o leva a parar junto ao acidente de trânsito, prejudicando até a chegada de socorro, só pra ver o sofrimento dos outros, e dar graças a deus de não ser o próprio. Um festival ridículo de humanidade pervertida, o pior de cada um, mostrado sem pudor e vergonha, traduzido na 'cobertura' que ninguém, no fundo quer, ou quereria, se fosse ele ali, sofrendo com o filho morto no colo. Números desencontrados, confundindo quem mais precisa de informação, num afã de ser o primeiro a mostrar o que ninguém, no fundo, quer ver.

Nesse tipo safado de 'cobertura', mais vale ficar repetindo o que todos já viram, que ficar quieto no seu canto, com a programação normal, transmitindo somente flashes relevantes, quando necessário. Isso faz que a dor dos que perderam os seus, fique cada vez mais banalizada e espetacularizada, despida de seu caráter trágico e triste, o sofrimento vira o fantástico show da morte e a dor vira notícia.

Aí vem a vez do desfile dos 'especialistas' em tudo, botando o cadeado na porta já arrombada. Mais uma corja que vive do sofrimento que não lhe toca tanto o coração, quanto lhe aumenta a conta bancária. Depois do desastre consumado eles vem nos contar como aquilo poderia ter sido evitado. A culpa é sempre das autoridades, como se cada um não tivesse, ali, o seu quinhão doloroso de responsabilidade. A canalhice é tanta que  chegam a se curvar para atender aos anseios dos donos de emissoras, de envolver os que não lhe merecem o devido respeito, ou não lhes servem os interesses; que informar com idoneidade.

Mas o pior ainda não chegou, os comentaristas ainda não subiram ao palco da tragédia, pra transformar a dor em cacife politico e, de novo, engordar sua merreca, e aumentar seu cartaz com os donos das câmeras. Esse é com certeza o pior tipo de abutre. Eles se dividem em: comentaristas opinionados, chargistas sem nenhum senso de humor e piadistas de mau gosto, sempre prontos a ofender a todos, só para ferir uns e outros que não se comportam a contento. Eles tentam de toda forma passar ao próximo nível de baixeza humana, que quer transformar tudo em índices, em lucro fácil e ilusão de competência. Nesse grupo asqueroso estão a maioria dos apresentadores  de noticiários e 'jornalistas' de catástrofes. 

Esses dias ouvi o Boechat dizendo que um editor, na cobertura da posse de Obama, disse a ele: "bem que podia acontecer um atentado, afinal essa posse não é mais notícia há uns 4 anos!". Isso revela bem por que a profissão de jornalista sempre foi vilipendiada, afinal eles só existem em função das catástrofes que emulam o pior de cada um que se propõe ao serviço de informar, o bem não é notícia e a felicidade não dá ibope.


Sintonia Fina
Via 

Blogg do Amoral Nato

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