27 de jan de 2013

A choradeira dos jornalões


Por Miguel do Rosário

A reação dos jornais, sempre em linha com a oposição, ao pronunciamento de Dilma Rousseff, foi previsível. Globo, Folha e Estadão responderam em uníssono, no mesmo tom e usando palavras quase iguais. Textos meio desconjuntados, irritados, como que afetados por descontrole emocional. No editorial do Globo, por exemplo, há um longo e choroso texto entre parênteses, apenas para defender FHC.



Gostaria de comentar esse trecho do editorial do Globo: 

O que não é correto é o governo ter transformado a questão da energia, tão séria e delicada para o país, em tema de exploração política.

Desde as eleições gerais de 2002, ocorre esse tipo de exploração, pois o PT fez do racionamento um dos seus principais cavalos de batalha, atribuindo à administração Fernando Henrique Cardoso inteira responsabilidade pelo que tinha acontecido (embora a mobilização da sociedade para evitar consequências mais drásticas de uma eventual escassez de energia elétrica possa ser apontada como uma das iniciativas mais positivas do governo FH ao fim de seu mandato).

Quem explorou politicamente o tema foi a mídia, não o governo, através de matérias alarmistas, visando produzir o primeiro grande factóide negativo do ano. A reação da presidente era necessária para dissolver boatos que, mesmo sendo boatos, afastam investidores e, portanto, prejudicam a economia.

Por outro lado, a energia é um tema que deve ser politizado sim, porque aí temos um debate saudável, sobre fatos pertinentes a nosso futuro. A sociedade precisa manter um olhar crítico e vigilante em relação à política energética, e uma das formas de fazê-lo é através dos partidos políticos que representam as diversas correntes de opinião num país. O problema do governo tucano não foi exatamente o racionamento, porque ele não teve culpa pela falta de chuva. Seu maior problema foi a situação de total desamparo e insegurança que legou ao país após oito anos de governo.

Sim, ainda enfrentamos riscos, porque o Brasil depende de muita água (e logo, chuvas) para mover as turbinas de suas hidrelétricas. A grande diferença daqueles tempos de triste memória, e os dias de hoje, é que estamos assistindo agora à construção de grandes usinas; as usinas nucleares de Angra foram reativadas; e investiu-se em grandes parques de energia eólica, que dependem agora apenas de linhas de transmissão para gerarem energia. As perspectivas energéticas são promissoras. Antes não eram.

Claro que há problemas no governo e na sua política energética. Obama falou uma coisa bonita em seu discurso: “a gente tem de agir mesmo sabendo que iremos errar”. O governo comete erros o tempo inteiro. Por exemplo: construiu enormes parques eólicos, que ficaram prontos antes das linhas de transmissão. Erro grave, porque poderíamos já estar usufruindo da energia gerada pelos ventos. Mas seria um erro muito mais grave se não tivesse construído nenhum parque eólico!

O nível dos reservatórios, por sua vez, continua aumentando. Segundo o ONS, o nível dos reservatórios no Sudeste está em 34,28%. Há pouco mais de dez dias, chegou a 28%. Os institutos de meteorologia prevêem mais chuva, em todo Brasil. Talvez isso explique, aliás, o alarmismo agressivo da mídia durante o período em que o baixo nível dos reservatórios causou apreensão. O mensalão terminou, a popularidade da presidente subiu e o PT ganhou a prefeitura de São Paulo. Uma crise energética possivelmente era a última esperança da oposição. Explica da mesma forma a reação da presidente, cujo sorriso algo forçado durante o pronunciamento indica que ela também entendeu as últimas semanas como fundamentais para lhe assegurar uma reeleição tranquila.

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O Globo está fazendo o maior escarcéu porque a a inadimplência das famílias cresceu 0,1% em dezembro, ficando em 7,9%. Mas olhe a evolução dos juros do crédito pessoal:






Observe que 2012 assistiu a um declínio fortíssimo dos juros do crédito pessoal. Os jornais agora tentam usar um insignificante aumento da inadimplência como argumento para atacar a política de expansão de crédito e redução de juros do governo. Dizem eles: “olha aí, reduziu os juros, e o povo não pagou as dívidas, então é melhor parar de emprestar.”

As pessoas só vão pagar depois, bem depois, dos juros baixarem, e não simultaneamente à sua redução. Por isso o Banco Central insiste que a inadimplência vai cair.

O endividamento das famílias brasileiras, em relação à sua própria renda, abaixo de 45%, ainda é muito baixo se comparado ao dos países ricos. Considerando que o desemprego está baixo e os salários, em alta, nada justifica interromper a expansão em curso, que é importante para estimular o crescimento econômico.

É preciso um pouco de imaginação (mas não muito) para entender que a nova realidade do sistema nacional de crédito produzirá uma nova cultura de investimento. Cada vez mais se torna menos interessante aplicar dinheiro em mercado financeiro ou mesmo em caderneta de poupança; muito melhor aplicar em produção.



Sintonia Fina

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