16 de nov de 2011

Como o Brasil poderá se beneficiar da crise


É inútil a discussão sobre quanto a economia crescerá este ano ou nos próximos. É evidente que o país será afetado pela crise internacional, que sofrerá menos do que em 2008 e que há uma tática de curto prazo para amenizar os efeitos da crise.
A questão é outra.
Nas grandes crises do século 20, o Brasil foi beneficiário, permitiu-se grandes saltos de desenvolvimento.
A crise de 1929, ao estancar o financiamento externo, obrigou Vargas a impor limites ao livre fluxo de capitais. A consequência foi os grandes capitais nacionais caírem na economia real, através dos bancos comerciais ou na implantação de fábricas, acelerando substancialmente o processo de substituição de importações.
A Segunda Guerra permitiu ao país acordos bastante vantajosos, antes da eclosão do conflito; um grande acúmulo de reservas, no decorrer da guerra; a importação de cérebros valiosíssimos, que ajudaram a completar a ciência nacional. E, depois, a importação de fábricas de veículos europeias, que ficaram disponíveis após o plano Marshall.
A crise externa dos anos 70 levou Geisel aos grandes investimentos do 2º Plano Nacional de Desenvolvimento que, apesar do endividamento remanescente, completou o quadro de industrialização do país.
Hoje em dia, o Brasil virou foco de atenção das maiores empresas e economias do mundo por um ativo fundamental, ainda mais nesses tempos de crise: seu mercado interno. Em todos os setores há uma enxurrada de capitais chegando, em busca do porto seguro da demanda assegurada pelo Brasil.

A estratégia brasileira deveria se desenvolver nas seguintes frentes:

1. Exigência de contrapartida das empresas que aspiram o mercado interno brasileiro.
2. Política monetária e fiscal visando realocar os ativos financeiros - hoje em grande parte girando a dívida pública - para investimentos na economia.
3. Estratégias de inserção global, não apenas das multinacionais brasileiras, mas de cadeias produtivas inteiras - com prioridade para América Latina e continente africano.
4. Estratégia específica de internacionalização dos bancos brasileiros, aproveitando o desmonte do sistema bancário dos países centrais.
5. Plano integrado de logística transcendendo as obras do PAC (Programa de Aceleração do Desenvolvimento), com enfoque nas novas zonas de crescimento dinâmico da América do Sul.
Não é hora de se contentar meramente em minimizar os efeitos da crise sobre a economia. É hora de planejar o salto.


A lição de casa já começou a ser feita. Os programas de transferência de renda estão consolidando o novo mercado de consumo. Já existe mobilização pela inovação e pela educação. As Conferências Nacionais deram uma solidez inédita ao tecido social brasileiro, nos mais diversos setores. A diplomacia já conseguiu seu aggiornamento, incluindo o pragmatismo comercial e a visão estratégica em seus estudos. Já existe uma musculatura financeira, no mercado de capitais, BNDES e fundos de private equity.

Só falta juntar todos os agentes e passar a pensar grande.

Hoje em dia, o Brasil virou foco de atenção das maiores empresas e economias do mundo por um ativo fundamental, ainda mais nesses tempos de crise: seu mercado interno. Em todos os setores há uma enxurrada de capitais chegando, em busca do porto seguro da demanda assegurada pelo Brasil.
Chegou a hora do país dar um salto e montar uma estratégia de inserção na economia global, visando as próximas décadas. E aí há que se valer do exemplo da China e mesmo do exemplo brasileiro dos anos 50 aos 80.
Mercado interno é ativo nacional. Como tal, o acesso a ele precisa ser negociado. A negociação tem que girar em torno de pontos essenciais:

1. Compromisso da empresa que entra de seguir o processo produtivo básico, com índices crescentes de nacionalização. As recentes iniciativas no setor automobilístico mostraram sua eficácia, acelerando a decisão das maiores empresas de ampliar a nacionalização da sua produção.
2. Compromisso de transferência objetiva de tecnologia. Hoje em dia, por exemplo, as maiores empresas de química do mundo estão aqui. E o país continua extremamente dependente de química fina. Há que se mapear os produtos-chave do atual estágio de desenvolvimento e conferir prioridade – exigindo contrapartida das empresas que vierem.
3. Contrapartida no fortalecimento da cadeia produtiva do setor, inclusive com políticas clara de compra e capacitação de micro, pequenas e médias empresas nacionais.
4. Compromisso com os movimentos de inovação já existentes no país.
5. Formas de indução à descentralização do desenvolvimento.
6. Metas firmes de exportação e de substituição de importações.

São várias as maneiras do governo atuar. Uma, em cima de leis claras e objetivas. Outra, na parte tributária. Uma terceira ferramenta, na política de compras públicas.
Especialmente nos setores de saúde, educação e defesa, o país dispõe de compras volumosas, ambicionadas pelas maiores empresas do mundo. Ou seja, o mercado é ofertante e o Brasil o grande demandador.
Assim como no recém-anunciado episódio Foxconn – do BNDES e de Eike Baptista se associando ao empreendimento – há espaço para se começar alguma estratégia envolvendo os grandes investidores e fundos de investimento brasileiros.
Mais que isso, o tripé ideal seria: multinacionais -> fundos de investimento-> médias empresas brasileiras com capacidade para absorver tecnologia.
É preciso deixar de lado a ideia de que basta a vinda da multinacional ao país para, automaticamente, haver ganhos tecnológicos e de inovação. Há uma parte modernizante – o exemplo de seus produtos, algum contato entre institutos de pesquisa e seus especialistas, o relacionamento com fornecedores. Mas, no geral, se não houver políticas objetivas de transferência de tecnologia, de indução à parceria com institutos de pesquisa nacionais, de capacitação, enfim, da pesquisa nacional.
O Brasil está entrando na crise mais relevante da sua história, na que maiores oportunidades abre, sem um plano de voo definido.

É preciso repensar e aprimorar a questão do investimento externo.

Para entender a crise do euro – 1
A atual crise do euro dá margem a um conjunto grande de boatos – que ajudam a mexer com mercados – e fatos concretos. Um dos pontos centrais da crise é que não interessa nem à Alemanha nem à França a dissolução do bloco europeu. São os países mais fortes e com mais responsabilidades no bloco. Mas, na condição de grandes potências, são as economias que mais necessitam do euro para competir com EUA e Ásia.
Para entender a crise do euro – 2
O segundo ponto é que os problemas do euro só se resolverão com a unificação final das economias europeias. É o que impediria as políticas fiscais díspares, que levaram ao grande endividamento da Grécia, Itália e Espanha. Mas, por outro lado, o controle pelo Banco Central Europeu, da parte fiscal e do câmbio significaria o fim da autonomia nacional, em um momento em que populações se rebelam contra a globalização.
Para entender a crise do euro – 3
Desde o século 19 há um conflito latente entre mercados financeiros e estados nacionais. Foi assim no início da internacionalização do capital – sob a égide dos Rotschilds e do Banco da Inglaterra. Ao capital interessa a uniformização das leis nacionais, das políticas fiscais e monetárias. O que significaria ao país abdicar de um projeto nacional próprio. Em troca, oferecia a paz e a prosperidade. O projeto acabou na crise de 2008.
Para entender a crise do euro – 4
Agora se chega a um impasse complexo. A especulação financeira enorme das últimas décadas inflou todos os ativos, assim como as economias nacionais e a arrecadação fiscal. Quando veio a crise, despencaram preços de ativos e capacidade de arrecadação dos países, criando enorme descompasso entre o valor dos passivos e a capacidade fiscal dos estados nacionais.
Para entender a crise do euro – 5
Há apenas uma maneira de resolver esse descompasso, comum a todas as técnicas bancárias: quando reconhecidamente o credor não tem capacidade de pagar a dívida total, o banco dá um desconto, visando viabilizar o pagamento. Todo dilema da União Europeia é que, apesar do modelo financista ter entrado em crise terminal, ainda preserva enorme poder político, emperrando as tentativas de renegociação.
Para entender a crise do euro – 6
Fica-se então nesse impasse para saber quem paga a conta. Numa ponta, os governos nacionais, pressionados por seus eleitores – que não desejam mais uma vez pagar, depois da redução do estado do bem estar em nome de um futuro radioso que não chegou. Na outra, as autoridades monetárias europeias – BCE à frente – pressionando os países a arcarem com o prejuízo. Enquanto isto, a crise vai se ampliando.

Sintonia Fina via Luis Nassif

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